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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Entrevista com Christiane Torloni: "a sociedade está mais careta"

Peça "A Loba de Ray-Ban", que trata temas polêmicos como a bissexualidade vem a São José dos Campos

Inúmeros trabalhos em televisão, cinema e teatro fazem de Christiane Torloni referência nos palcos e nas telas brasileiras. A atriz paulistana, de 53 anos (com 35 anos de carreira), vem a São José dos Campos neste fim de semana para apresentar a peça “A Loba de Ray-Ban”, grande sucesso da década de 80, que voltou aos palcos brasileiros.

O mais curioso é que Torloni participou da primeira montagem da peça. Na primeira montagem, em "Lobo de Ray-Ban", a atriz ganhou reconhecimento no teatro ao lado de Raul Cortez.

Um triângulo amoroso envolvia um célebre ator, sua ex-mulher e o jovem amante dele. Agora, a personagem Júlia Ferraz salta de ex-esposa para protagonista. Abandonada por Paulo (o ator Leonardo Franco), Júlia se apaixona pela atriz iniciante Fernanda (Maria Maya).

A atriz revela que Raul Cortez, que consagrou a peça, ainda aparece durante o espetáculo. “Ele é presença forte na peça. Inclusive, em uma das cenas que se passa no camarim da atriz, pedi para colocarem uma foto dele no cenário”, comenta.

A peça está em turnê há um ano e ela conta que a experiência tem sido muito gratificante. "A Loba de Ray-Ban" já passou por Caraguatatuba e agradou a atriz. “As pessoas saem animadas, assim como nós, atores. Estamos percorrendo o país inteiro e o resultado tem sido muito bom. O teatro de Caraguatatuba é incrível”.

Muito ativa nas questões políticas e ambientais - a atriz foi personagem importante nas Diretas Já -, Torloni achou positiva a entrada de Marina Silva, na disputa presidencial. "Ela foi a presença do Meio Ambiente na discussão. Ela saiu e não se toca mais no assunto", reclamou.

O VNews conversou, por telefone, com a atriz nesta quarta-feira (20). Veja os principais trechos da entrevista:

Preconceito
"Do fundo do coração, apesar dos avanços que tivemos, as pessoas estão mais caretas. São Paulo, por exemplo, organiza uma Parada Gay para mais de 3 milhões, e às vezes, não tem essa abertura. A própria questão da Aids ajudou nessa regressão do pensamento das pessoas"

Peça
"O texto tem uma diferença nessa nova montagem. Os homens são mais cínicos, debochados com a própria dor e a mulher, não, é mais hemorrágica. Em relação à peça, não me lembro de uma peça que tenha montagem masculina e feminina como personagem principal, e isso é muito bom para a dramaturgia"

Eleições
"A entrada da Marina foi importante. Ela foi a presença do Meio Ambiente na discussão. Ela saiu e não se toca mais no assunto. Não se vê nenhuma proposta nessa questão, que vai ditar nosso destino. Os dois candidatos estão se esquecendo de temas graves".

Controle da mídia
"Um tema importante é o controle que estão querendo criar. Se caso esse governo tiver continuidade, estão preparando essa agência de fiscalização. Além das questões básicas, ambientais, tem a questão do próprio direito à liberdade".


Recado para o público joseense
"Quem for ao teatro, vai ficar levantado da cadeira e curtir 100 minutos de enorme prazer, tensão, tesão. É um presente da dramaturgia. São José dos Campos é uma cidade de tradição cultural e está em um eixo importante entre Rio e São Paulo" .

Quer ir??
O site VNews está fazendo uma promoção, onde será sorteado um par de ingressos! Entre no link e concorra...
http://http://www.vnews.com.br/hotsite.php?id=904

SERVIÇO
•Ingressos:
Inteira: 60 reais / Meia-entrada: 30 reais
•Data e horário:
22 de outubro - sexta: 21h
23 de outubro - sábado: 21h
24 de outubro - domingo: 19h
•Duração:
100 minutos
•Classificação:
14 anos
•Informações:
Telefone: (12)3936-1118 / (12)3913-4001


PONTOS DE VENDA
•Doceria Marinella
Avenida 9 de julho, 141 - Vila Adyana - São José dos Campos
Telefones: (12)3913-4000 / (12)3922-8080
•Supermercado Villarreal - Vila Ema
Avenida Heitor Villa Lobos, 934 - Vila Ema - São José dos Campos
•Café no Bule Restaurante (Shopping Centro São José) - 3º andar
Rua Dr. Rubião Júnior, 84 - Centro - São José dos Campos
Telefone: (12)3922-4541
•M Officer - Shopping Vale Sul
Avenida Andrômeda, 227 - Jardim Satélite - São José dos Campos
Telefones: (12)3204-3968 / (12)3204-3939


TEATRO MUNICIPAL DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS
Rua Doutor Rubião, 84 - Centro - São José dos Campos
Shopping Centro - 3º Piso
Telefones: (12)3936-1118 / (12)3913-4001



quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Entrevista com Christiane Torloni: A Loba devora mitos

Em pele de Loba.


Temas são abordados no espetáculo "A Loba de Ray-Ban", que a atriz encena em Porto Alegre.

Passaram-se 23 anos desde que Christiane Torloni veio a Porto Alegre com a mesma montagem que agora a traz de volta à Capital. Em A Loba de Ray-Ban, em cartaz nos próximos dias 17 e 18 de julho, no Teatro do Bourbon Country, ela interpreta a loba da história, é o centro do triângulo amoroso formado ainda pelos atores Leonardo Franco e Maria Maya. Em 1987, Torloni dava vida à mulher de Raul Cortez, o protagonista de O Lobo de Ray-Ban. Agora, personagens e gêneros se invertem. O grande assunto da peça é o relacionamento amoroso, o papel da traição, da paixão e do ciúme. Por isso essa peça nunca fica datada, explica o diretor José Possi Neto, que também dirigiu a montagem anterior. O papel não poderia ter encontrado Christiane Torloni em melhor hora. Aos 53 anos, ela sente-se à vontade para questionar todos os temas do espetáculo. A peça trata de liberdade sexual, avisa.




Donna – Há 23 anos, você participou da montagem O Lobo de Ray-Ban. A diferença é que interpretava a mulher de Raul Cortez, o lobo da história. Que paralelo você traça entre as duas montagens?

Christiane Torloni – É muito interessante a linha do tempo desse espetáculo, porque dá a impressão de que nunca foi interrompido. A Júlia, personagem que fiz 23 anos atrás, a mulher do lobo, que vivia com ele todo um questionamento sobre sua sexualidade, agora é o alvo dessa questão. Nesta peça, não importa se o personagem principal é o homem ou a mulher, porque os lobos são livres, independente do sexo. São solitários, mas são livres. E essa liberdade não incomoda o lobo, mas o outro. É uma ameaça para o outro. Esse é o grande questionamento, tanto do lobo quanto da loba.

Donna – Quando você começou a ensaiar a peça, e também logo na estreia, sentia muito forte a presença de Raul Cortez, era como “se ouvisse a voz dele”. Ainda é assim?

Christiane – (Risos) Vocês acham que isso é uma coisa paranormal, mas não é. Ela significa amor, e o amor é maior do que a morte. As pessoas não morrem, ficam encantadas, já dizia Guimarães Rosa. O Raul está com a gente o tempo todo.

Donna – Na montagem de 1987, havia a relação homossexual de dois homens e uma mulher. Agora, o triângulo se inverte: são duas mulheres e um homem. Essa montagem atual teria sido possível naquela época, ou seja: hoje a sociedade está mais condescendente para assistir ao relacionamento entre duas mulheres?

Christiane – Eu acho que é o inverso, né? Há 23 anos, fazer a montagem que o Raul fez foi algo muito inquietante. Na nossa sociedade, dois homens juntos é muito inquietante. Duas mulheres juntas, não. É só ver esses canais de assinatura para adultos e a quantidade de programas propondo um ménage à trois entre duas mulheres e um homem.

Donna – Mas você mesma interpretou um personagem na novela Torre de Babel, em 1998, que vivia uma relação homossexual com a personagem da atriz Silvia Pfeiffer e foi tamanha a rejeição do público que o autor Silvio de Abreu teve que matá-las em um incêndio.

Christiane – (Pensa) A sociedade é de uma caretice... E é tão patriarcal! Tem várias culturas que permitem ao homem ter mais do que uma esposa, ter duas, três. Eu não conheço nenhuma cultura no mundo que permita à mulher ter mais do que um marido. Você vê homens dizendo: “Ah, se eu pudesse teria duas mulheres”. Mas você não vê mulheres dizendo “ah, se pudesse eu teria dois, três homens”. Até porque elas mal aguentam um só.



Donna – Aquele relacionamento entre a sua personagem e a da atriz Silvia Pfeiffer seria aceito hoje?

Christiane – A sociedade continua tão careta quanto naquela época, mas está mais condescendente. Aliás, como a sociedade é hipócrita, né? (risos). Todo mundo tem um amigo gay, uma amiga sapata, mas, se for seu filho ou sua filha, todo mundo grita. Conheço pessoas esclarecidíssimas que, quando descobriram que o filho ou a filha era gay, o mundo veio abaixo.

Donna – Você fala sobre homossexualidade com muita naturalidade e se mostra bem à vontade em papéis homossexuais. Você diria que se deve à sua educação? Em casa, quando menina, esse tema não era tabu?

Christiane – São todas essas coisas juntas. É uma combinação de fatores. E mais: a minha agenda está repleta de amigos gays, homens e mulheres. São amizades de mais de 30 anos. Então, se eu resolver fazer qualquer espécie de patrulha ideológica na minha carreira, é melhor fechar a banca, você não acha?


"Aos 50 anos, dificilmente alguém está discutindo se vai ou não sair do armário. Quanto às mulheres, isso é improvável. Os homens já são mais atrasadinhos..."


Donna – Qual você diria que é a grande reflexão que a peça promove?

Christiane – É muito bonito essa questão da sexualidade vir à tona na idade do lobo, ou na idade da loba, aos 50 anos. Porque ninguém mais é adolescente, ninguém mais está naquela fase de testes, se gosta disso, se prefere aquilo, se são as duas coisas... Aos 50 anos, dificilmente alguém está discutindo se vai ou não sair do armário. Quanto às mulheres, isso é improvável. Os homens já são mais atrasadinhos...

Donna – Quais são as principais semelhanças e diferenças entre você e a Loba de Ray Ban?

Christiane – Não existe isso. Somos todos humanos. O que existe em comum é o questionamento humano. Independente do que a Júlia tem a ver comigo, ela tem a essência humana. Essa é a grande aventura de ser atriz: não é o que o personagem tem em comum com você, mas aquilo que ele vai agregar à sua vida.

Donna – A peça não trata apenas de homossexualismo, esse é apenas um dos enfoques. como bem insiste o diretor José Possi Neto. A peça também fala de traição, paixão e ciúme. Gostaria que você se definisse como mulher nesses três temas.

Christiane – Eu ainda pertenço ao gênero feminino e ainda pertenço à raça humana (risos). Portanto, enquanto eu estiver nesse plano, estarei negociando com todos os sentimentos, primitivos ou não, que fazem parte do código genético da gente. Quando eu me iluminar, quem sabe isso mude. É por isso que existe o tempo, é por isso que ele passa: para que a gente vá negociando com nossos impulsos internos e vá aprendendo onde a gente está sendo ridícula, onde está perdendo tempo, onde o problema não é o outro, mas a gente.

Donna – Você vive um casamento feliz há 15 anos, mas não se trata de um casamento convencional, já que você e seu marido, Ignácio Coqueiro (diretor), vivem em casas separadas. Você diria que essa é uma das principais características do sucesso da relação?

Christiane – Esse é um casamento peculiar, é? Eu conheço outros casamentos tão mais peculiares do que o meu... (risos). São acordos sociais, só isso. Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre viveram assim durante 50 anos. A gente está apenas engatinhando, 15 anos não é nada!

Donna – Como é se apaixonar depois de uma separação?

Christiane – Vinicius de Moraes responderia bem a essa questão. Como é que um outro amor pode acontecer se você não deixar o antigo ir embora? Tem gente que reclama: “Ah, não consigo me apaixonar de novo, não consigo recomeçar a minha vida...” Mas é claro! Se não se desapega daquilo que foi, se fica segurando aquele morto para o resto da vida, fica cultivando um cadáver dentro de casa! Aí não tem jeito mesmo. Vai ficar ali, de viúva, o resto da vida.

Donna – Você tem 53 anos e, sempre que aparece na tevê, as mulheres querem saber o que faz para se manter tão bem. Conte.

Christiane – São várias coisas. Eu acho que a gente tem que se ajudar constantemente, em todos os aspectos. Quando uma pessoa diz para mim que ela não consegue fazer uma atividade física, sendo saudável e tendo todas as condições para realizá-la, eu viro as costas e vou embora, porque o nome disso é preguiça. Tem gente que não tem duas pernas ou dois braços e é atleta, basta ver as Paraolimpíadas. Ali está a prova do poder de superação em todos os sentidos. Daí você olha para isso e não consegue levantar de manhã para fazer uma aula?! Por quê? Nosso corpo foi feito para estar em movimento, e é em movimento que ele deve estar até o final da vida, cada um na sua medida.

Donna – Quais são seus movimentos?

Christiane – Eu caminho, ando de bicicleta, faço yoga... Coisas que me dão prazer. Atividade física tem que estar intimamente ligada ao lúdico, ao prazer que você tinha na infância ao se exercitar com alguma prática, que não se chamava nem ginástica, nem esporte. Quando a gente é criança, a gente brinca de correr, de jogar bola, de andar de bicicleta, de ficar em posturas engraçadas... Se você olhar, as crianças fazem tudo isso. E é isso o que eu faço hoje, com a minha idade e com as minhas limitações.

Donna – Sua mãe (a atriz Monah Delacy) diz que você se alimenta mal. Você concorda?

Christiane – (Risos) Eu adoro comer, mas há alguns anos cortei a carne vermelha e a de frango. Minha mãe, como filha de gaúchos, acha isso uma afronta. Minha avó era de Santa Maria, e meu avô, de Cruz Alta. Portanto, para ela é uma ofensa ao genoma familiar.

Donna – Qual seu estágio de vaidade?

Christiane – Eu não sou uma vítima da vaidade e da beleza, não. Pelo contrário: eu sou muito vaidosa com meu trabalho, porque não é um trabalho particular. Ele coloca você em uma exposição pessoal muito grande. Portanto, qualquer roupa mal cortada, maquiagem malfeita, jamais passa despercebida e pesa contra você. Nesse sentido, sou muito chata. Me preocupo com os figurinos, com a minha imagem. Mas é sempre uma vaidade relacionada ao meu ofício de atriz.




"A vida tem que ser vivida sem anestesia. A gente vive com algumas angústias, claro. Mas angústia e inquietação não são doenças. Remédio para viver a vida? O homem criou essa sociedade, ele tem que estar preparado para ela."



Donna – Você andou se queixando que o povo está tomando Rivrotril como se fosse floral, que as pessoas estão se anestesiando porque ninguém mais quer se emocionar.

Christiane – (Interrompendo) E anda mesmo, é impressionante! A vida tem que ser vivida sem anestesia. Anestesia tem hora, local e prescrição específica. A gente vive com algumas angústias, claro. Mas angústia e inquietação não são doenças. A inquietação fez o homem chegar à Lua. Se o homem tivesse tomado Rivotril nas cavernas, estaria colhendo até hoje. Caçar pra quê? Eu acho que a gente tem que tomar muito cuidado com essa predisposição social em que todo mundo é meio cool, parece anestesiado. A gente tem que entender que esses níveis de sentimento fazem parte da condição humana, que são normais. Eu concordo com a medicina quando ela evita que uma pessoa faça algum mal a si própria. Mas remédio para viver a vida? O homem criou essa sociedade, ele tem que estar preparado para ela. Agora vai começar a se dopar para não enfrentar o mundo que ele próprio criou? Que loucura é essa?

Donna – Você toca em um assunto que fez da escritora Lya Luft uma best-seller. Em Perdas e Danos, ela escreve: “Permitam-me o luto no período sensato. Me ajudem não interferindo demais. O telefonema, a flor, a visita, o abraço, sim, mas por favor, não me peçam alegria sempre e sem trégua.”

Christiane – (Interrompendo) Claro! A vida é isso: perder e ganhar, nascer e enterrar. À medida que a gente perde a capacidade de viver esse sentimento, a gente está em processo de autodestruição. A Loba de Ray Ban é um espetáculo de uma passionalidade incrível, não tem nada de light, porque a vida não é light. O espectador tem que ir preparado para o tête-à-tête da vida. Como é que você pode ter essa aproximação com a vida se você está o tempo todo anestesiado?

Donna – A peça deixa alguma lição nesse sentido?

Christiane – Sim. O final da peça é um grande questionamento sobre o que é a vida. E o Renato Borghi (autor) traz lindamente à cena o Calderón de La Barca (Pedro Calderón de La Barca, dramaturgo e poeta espanhol, autor do poema A Vida É Sonho). Ele diz que a a vida é sonho e, então, que sonhemos todos. Quem consegue sonhar anestesiado? O sonho ajuda a gente a ir para frente, ajuda a entender a nossa alma. E o teatro é isso, e por isso ele muda a vida das pessoas.

Fonte : Donna*

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

"A Loba de Ray-Ban" chega à Recife.

Christiane Torloni: "Não é tudo mundo que vira Loba"




INSTANTES DE DOR E PAIXÃO

Em pouco mais de 20 anos, o mundo deu muitas voltas. O muro de Berlim caiu, o Brasil controlou sua inflação, as torres gêmeas nos Estados Unidos vieram abaixo, Saddam Hussein morreu, a tecnologia possibilitou até transplante de face. Mas há certas coisas que, mesmo com toda a evolução, aindacausam certo impacto. Em 1987, por exemplo, quando Raul Cortez levou ao palco a bissexualidade na peça O lobo de Ray-ban, havia um certo suspense nas plateias Brasil afora. Mais de 20 anos depois, A loba de Ray-ban, versão feminina do texto, parece que ainda traz incômodo aos mais tradicionais. Tanto que, em Curitiba, no festival de teatro deste ano, alguns deixaram o ostensivo Teatro Positivo quando cenas 'um pouco mais quentes', entre Christiane Torloni e Maria Maya, começaram.

Fica só na insinuação, não é nada demais, nem a bissexualidade é um tema tão central assim na montagem que se apresenta hoje, às 21h, e amanhã, às 20h, no Teatro da UFPE. A peça, texto de Renato Borghi (escrito originalmente para Dina Sfat), falade amor, do abandono, da idade. "As grandes peças e os grandes textos são clássicos. A peça trata de grandes temas. A função da arte é fazer o homem se conhecer melhor. O espectador não é um voyeur. Ele pensa. A peça é para ele pensar a própria vida. Todo mundo tem uma grande paixão. A peça é uma metáfora dessa perda. Não importa se uma separação dói. O que importa é encarar de frente os fatos", explica o diretor das duas versões, José Possi Neto.

Na história, que faz uma metalinguagem ao próprio teatro, Christiane Torloni (que interpretava a ex-esposa de Cortez na primeira versão) é a famosa atriz Júlia Ferraz, que foi casada com o ator Paulo Prado (o mesmo Leonardo Franco, que fazia o amante de Raul Cortez) e agora está apaixonada por Fernanda Porto (Maria Maya, que interpretou a filha de Christiane em Caminho das Índias). Só que ela é abandonada pelos dois, numa mistura forte de dor, consciência do tempo e paixão.

O cenário grandioso simula o palco de um teatro e os bastidores de uma companhia. A peça começa exatamente na última noite de Paulo Prado na companhia, quando eles encenam Medeia. Só que Júlia começa a intercalar trechos da sua própria história com a da malvada Medeia, que mata os filhos para se vingar do abandono de Jasão. Já quando vai fazer o teste com a sua nova paixão, o texto escolhido é As criadas, de Jean Genet. Uma encenação forte, carregada de peso dramático, com uma atriz que tem pleno domínio do palco, ao lado de companheiros que alcançam o seu ritmo.

"A montagem com Raul era mais seca plasticamente, nua, em preto e branco. Essa é operística, tem a vermelhidão, o coração, o sangue da mulher", define Leonardo Franco. Os ingressos para a peça custam R$ 100 (plateia) e R$ 80 (balcão), à venda na Livraria Saraiva, no Shopping Recife, e na bilheteria do teatro. Estudantes pagam meia-entrada. Assinantes do Diario compram até um par de ingressos pelo preço da meia-entrada. Informações: (81) 3207-5757.

Entrevista





JP-Como era fazer a peça há 20 anos? O tempo pesa de alguma forma?
CT-Eu era menos famosa e menos experiente. Neste sentido, o tempo é ótimo. Eu nunca poderia ser a Loba naquela época. Seria, no máximo, uma lobinha. Aliás, não é todo mundo que vira loba, muitos viram uma ovelha velha apenas. E como se faz para ser loba? Ser loba é enfrentar o desafio da vida de frente. É não desistir nunca. É continuar. Mas não simplesmente continuar. Ir em frente com coragem, determinação. Assumindo os desafios.


JP-A peça se passa num teatro, com personagens que são atores. Existe aí um retrato do cotidiano de vocês, atores?
CT- A peça não é sobre o cotidiano do teatro. Se fosse discutir a nossa vida no teatro seria um inferno. A peça se passa num dia específico. Ela pega um instante da vida dessa companhia, quando o circo pega o fogo. É isso que as pessoas querem ver: o circo pegando fogo. É por isso que os reallity shows fazem tanto sucesso.

JP-Você e a Maria Maya foram mãe e filha na novela Caminho das Índias e agora estão no teatro como amantes. Como foi isso?
CT-A Maria fez um teste para a peça há dois anos e depois ficamos sabendo que nós duas iríamos trabalhar em Caminho das Índias, fazendo mãe e filha. Então nós adiamos a peça para fazer a novela. Nesse tempo, a produção captou os recursos para o espetáculo. Acho interessante ter tido esses dois trabalhos próximos com a Maria. Acredito que o trabalho vai se acumulando, vai melhorando a interação. Eu trabalho há 35 anos com Tony Ramos, fazemos mais um casal no filme Chico Xavier. Temos uma comunicação bem melhor por conta da experiência acumulada.


Fonte: Diário de Pernambuco

domingo, 1 de agosto de 2010

JC Christiane Torloni fala de sua peça

Christiane Torloni fala de sua peça "A Loba de Ray-Ban"

O processo de uma vasta crise afetiva e profissional de uma mulher madura mergulhada em inquestionável solidão é o cerne do espetáculo A Loba de ray-ban, encabeçado por Christiane Torloni, que aporta no Recife neste fim de semana. Uma diva do teatro, atriz conceituada e líder de uma renomada companhia entra em colapso quando seus companheiros, de palco e de vida, seu marido e sua amante a abandonam em pleno cena. O espetáculo dá vez ao escândalo pessoal e vida e arte se misturam diante dos olhos de público (fictício e real).




A peça, em cartaz sábado e domingo no Teatro da UFPE, é uma versão feminina de "O Lobo de Ray-Ban", de Renato Borghi, originalmente protagonizado por Raul Cortez e a própria Torloni no elenco, além do ator Leonardo Franco. A montagem de 1987, cercada de polêmicas, configurou-se como um marco da dramaturgia oitentista nacional. Ambas montagens têm direção de José Possi Neto.


Marco também na carreira da própria Torloni, que iniciou com "O Lobo de Ray-Ban" uma parceria com o Possi Neto que viria a render bons frutos no palco. Juntos, diretor e atriz realizaram sucessos como Salomé, de Oscar Wilde; Joana D’Arc, Blue room e As mulheres por um fio.

Passados 22 anos, Possi tira a poeira do texto resguardado por anos a fio ao lado da amiga e parceira Christiane Torloni, que também assina a produção da peça. Numa dança das cadeiras nos papéis, Torloni passa a fazer o papel que era de Raul Cortez. Leonardo Franco o que era de Christiane e o papel do jovem ator, antes representado por Leonardo, agora é interpretado por Maria Maya.




Christiane Torloni conversou, por telefone, com o JC Online sobre a peça e sua personagem. Confira a entrevista.

JC Online - Você integrava o elenco da peça na década de 80 e agora reintegra a montagem em outro papel, como é viver o texto por outra perspectiva?
Christiane Torloni - É realmente uma experiência bárbara, poucos artistas vivenciam uma oportunidade como essa de investigar tão fundo uma obra e ainda inteprertar outro personagem, é como passear pelo texto. Sinto-me premiada.

JC Online - Na primeira versão o papel-título era de um homem, nessa adaptação, o lobo vira loba. É complicado transmutar uma alma feminina para o personagem?
C.T. - O texto já abria esse precedente. Quando o Raul encenou o lobo, Renato Borghi, o [autor] começou a conceber para Dina Sfat uma versão feminina. Como o texto se baseia metaliguisticamente no universo do teatro, levou vários meses para que ele fizesse um paralelo feminino dos clássicos papéis masculinos como Ricardo III de Shakespeare, para Medeia de Eurípedes, ou Eduardo II, de Marlowe, para diálogos de As Criadas, de Jean Genet. Quando o texto ficou pronto, infelizmente a Dina já estava muito doente [a atriz veio a falecer em 1989] e a peça ficou engavetada.

Então a Loba em si já existia desde a sua concepção. Não é simplesmente um reflexo como espelho do Lobo, a Loba é uma mulher complexa, com seus sentimentos e crises muito intrísecos a uma alma feminina, então o mergulho não foi apenas meu, mas a personagem já trazia incutida sua feminilidade.

JC Online - E que há de Torloni nessa Loba, você se identifica com ela?
C.T. - De certa forma, eu cresci e amadureci com ela. Além das idenficações óbvias, dela ser uma atriz de meia-idade como eu [risos], ela estava sob minha percepção desde a encenação do Lobo. É como se a gente fosse ficando cada vez mais íntimo por que o mesmo aconteceu com a gente da equipe. Fiz sete espetáculos com o Possi [diretor] antes de revisitarmos essa montagem, então a gente também cresceu todo mundo junto. E, afora a poligamia, a Loba é uma mulher muito universal, com suas crises e questionamentos, a ira, a dor do abandono, e está um pouco em cada uma de nós. Só não fui, como ela, abandonada pela minha companhia em pleno palco, isso seria trágico demais para qualquer atriz, deus me livre! [risos].

JC Online - E o referencial do Raul Cortez como o Lobo, ficou algum tom nostálgico nesse resgate?
C.T. - É como se ele tivesse sempre aqui no palco. O papel vai ser sempre o Lobo, e sempre do Raul. O lobo é ele, não tenho tanta loba assim como arquétipo, inclusive pela própria bissexualidade do personagem. Parece um reencontro, a gente ouve ele nos ensaios, dá pra escutar ele gritando e impulsionando todo mundo. E ele deixou como legado essa referência de qualidade. Sabemos que menos do que aquilo não podemos oferecer. Pode não ser melhor, mas menos é inadmissível.

JC Online - O enredo da peça trata de temáticas indigestas e polêmicas como bissexualidade e relacionamento livre, na época do lançamento de ‘O Lobo de Ray-Ban’ houve um frisson sobre a montagem. Após 22 anos, você acha que o mundo mudou ou tais assuntos ainda são tabus?
C.T. - Eu acho que o mundo tá mais careta. Há mais hipocrisia na sociedade. Quando existem países que aindam colocam a homossexualidade como crime punível com pena de morte é sinal de que o mundo andou pra trás.

Fonte: JC Online

"A Loba de Ray-Ban" chega a cidade de Ribeirão Preto

A atriz Christiane Torloni estrela a peça "A Loba de Ray-Ban", em cartaz nesta sexta-feira (7) e no sábado (8), às 21h, no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto.



Aos 53 anos,
Christiane Torloni é uma das atrizes de maior sucesso na TV brasileira. Começou ainda adolescente na extinta TV Tupi e há 35 anos marca presença nas novelas da Rede Globo. Politizada e atenta ao problemas ambientais do país, seu projeto "Amazônia Para Sempre" foi premiado no ano passado.

Produtora artística e crítica das mudanças da Lei Rouanet defendidas pelo governo federal, Christiane ressalta que, apesar das dificuldades, ainda vale a pena investir em teatro "porque a cultura é o retrato de um povo".

A atriz se apresenta, nesta sexta-feira (7) e sábado (8), no Theatro Pedro II, como a personagem principal do espetáculo "A Loba de Ray Ban", escrito há 23 anos e que ganhou um versão masculina famosa com Raul Cortez. Na época, Christiane fazia o papel de esposa do "lobo". Na entrevista a seguir, a artista fala sobre teatro, ecologia e política cultural. Confira.






A Cidade -
É verdade que seu papel em ‘Loba de Ray Ban’ foi originalmente escrito para a Dina Sfat em 1987?
Christiane Torloni - Quando o Renato Borghi mostrou o texto para a Dina, ela pediu para direcioná-lo para o gênero feminino, porque ela queria fazer. O Borghi levou oito meses para esta nova versão, e quando ficou pronta, a Dina já estava muito doente [a atriz morreu de câncer em 1989], então ele entregou para o Raul Cortez. Foi quando nós fizemos em 1987. Eu fazia o papel que hoje é o do Leonardo Franco. Ou seja, eu era a esposa e o Leonardo agora é o marido.

A Cidade - Por que retomar este espetáculo 23 anos depois?
Christiane - Porque é um prêmio pra mim. Mas não é uma remontagem, porque no momento em que o personagem principal é uma mulher, tudo muda. Tem outro tipo de contundência. Para uma atriz que fez este espetáculo há 23 anos e poder retomá-lo, realmente é um prêmio. Inclusive porque percebe-se um amadurecimento do próprio personagem que eu fiz naquela época. É a Júlia 23 anos depois.

A Cidade - Depois da temporada em São Paulo, Ribeirão Preto é a primeira cidade a receber a peça fora da capital?
Christiane - Sim. Ribeirão Preto é uma referência de público e de teatro. Aliás, nós fomos para Ribeirão com ‘Lobo de Ray Ban’ anos atrás, num outro teatro [Teatro Municipal]. É muito interessante, porque muitas pessoas que viram o Lobo antes podem fazer essa observação entre os dois espetáculos.

A Cidade - E a Christiane mudou muito nessas duas décadas?
Christiane - (risos) Muito, agora virei loba, né (risos).

"A Loba de Ray Ban"

Sexta (7) e sábado (8), às 21h, no Theatro Pedro II

Rua Álvares Cabral, 370

Ingressos a R$ 60 (platéia, frisa e balcão nobre), R$ 50 (balcão simples) e R$ 40 (galerias).

Informações: (16) 3977-8111.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Christiane Torloni é entrevistada

Christiane Torloni é entrevistada no Programa Vitrine , da Tv cultura.


Passou ontem, 3, no Programa Vitrine, da TV Cultura, entrevista com a atriz Christiane Torloni . A atriz que excursiona pelo país com a peça A Loba de Ray-Ban, fala do projeto ambiental que desenvolve em prol da Amazônia e de sua participação no filme sobre Chico Xavier, de Daniel Filho. Quando o tema gira em torno de religião, ela se apresenta como uma católica que respeita os preceitos do budismo, mas conta que ficou surpresa com a força do espiritismo. Durante esse bate-papo, Torloni afirma: "Acho que Jesus é o maior popstar que apareceu nos últimos 2 mil anos".

Veja a entrevista abaixo:

a seguir entrevista com Christiane Torloni pelo Canal do Teatro " A Loba de Ray-Ban".

Veja entrevista abaixo:

terça-feira, 13 de julho de 2010

"A Loba de Ray-Ban" em Paixão e Crise.

Christiane Torloni Paixão e Crise em "A Loba de Ray-Ban"


Vinte e dois anos depois de participar da montagem da peça “A Loba de Ray Ban” de Renato Borghi, com Raul Cortez, Christiane Torloni volta ao palco com o mesmo espetáculo, agora no papel de Julia, versão feminina do protagonista, com direção de José Possi Neto (o mesmo de 1987). Em entrevista para o Guia de Teatro, Christiane Torloni fala do desafio de interpretar uma personagem que também é atriz e da intensidade dramática que resulta disso, no palco.

Guia – Você faz o papel de Julia, uma atriz num momento crítico da vida pessoal e profissional. Qual o limite entre atores e personagens nessa peça?
Christiane - O fato de nós estarmos fazendo um espetáculo que é sobre atores faz com que esse limite fique mais tênue ainda. Uma coisa é você representar uma personagem distante da sua realidade, outra coisa é você representar uma atriz que está vivenciando uma crise existencial que poderia ser a sua mesmo. Eu acho que acontece uma superposição muito interessante e o público desfruta disso também. Uma atriz representando uma atriz. Isso fica muito próximo de algo real e esse realismo é muito interessante porque há uma retro alimentação da Julia para a Christiane e da Christiane para a Julia.

Guia – E o fato de isso acontecer dentro de um teatro amplia todas as possibilidades?
Christiane - São três atores no âmago de uma crise afetiva e isso acontece dentro de um teatro, que é um lugar ao mesmo tempo sagrado e profano, o que permite que alguns limites sejam ultrapassados. E tudo isso é potencializado pelo fato de a Julia estar preparando a cena final da vida dela. Então não seria a mesma coisa se essa crise acontecesse, por exemplo, com um engenheiro. Também seria de grande humanidade mas, com certeza, muito diferente. Num determinado momento, os atores começam a se utilizar de personagens da dramaturgia universal para poderem demonstrar as suas emoções. A Julia, por exemplo, entende verdadeiramente a Medéia, depois de duzentas apresentações, no dia que ela tem um estalo. A Medéia, na verdade, é uma ponte pra ela ter um troço e interromper o espetáculo. É a fúria da vingança. Provavelmente um engenheiro não teria uma reação como a dela. Ela quebra as barreiras do teatro e vive uma catarse pessoal dentro da cena.

Guia – A paixão dos personagens, nesta peça, está relacionada com a paixão que move o ator a fazer teatro?
Christiane - Eu acho que sim porque a paixão existe ali em todos os sentidos. A paixão relacionada ao amor assim como a paixão do sangramento. A gente ama e sangra. Em doses que podem se tornar insuportáveis, dependendo da sua própria vida (a vida do ator). Às vezes acontece uma troca de emoções enorme entre ator e personagem. Não há um distanciamento. Na hora que você está ali no palco é amor e dor. Isso fica muito claro. São duas paixões e dois abandonos que a Julia está vivendo ali. E a gente não pode esquecer que ela está a ponto de se suicidar, por amor. Dois abandonos são demais! Ela pira! E acha que o suicídio é a única saída honrosa. Só que de repente o jogo vira.

Guia – O espetáculo exerce um grande fascínio na plateia, por estar ali, assistindo àquela transformação toda. A plateia está mais para terapeuta ou para voyeur?
Christiane - A analogia com a terapia é interessante, mas a peça, na verdade, é uma grande catarse em que o público, em determinado momento, faz parte daquela dinâmica de grupo que se estabelece. Eu acho que o termo voyeurismo talvez seja mais adequado. Tem um momento na proposta do Renato Borghi que é muito claro: é como se o público não estivesse ali assistindo o espetáculo mas, na verdade, olhasse por um buraco mágico de fechadura o que está acontecendo nos bastidores. A gente percebe que há um desejo inconsciente do público de saber o que se passa conosco quando o pano fecha. A frase inicial da peça é “Até que enfim eles (o público) foram embora”. A Júlia diz “Estou só” e então começa a lavar a roupa suja da da relação dela com o Paulo (Leonardo Franco) e depois com a Fernanda (Maria Maya). Nesse momento o público faz um mergulho na memória dela. A primeira parte do espetáculo traz muitas memórias. A segunda parte já não tem o mecanismo do flash-back. É tempo real. Então eu sinto que o público fica mais próximo dos personagens do que um terapeuta. O terapeuta sempre tem uma postura mais distanciada. Eu acho que o público, ao contrário, fica bem exposto ao que acontece ali. E isso fica muito claro pela forma que ele reage no final do espetáculo.




Fonte : Guia do Teatro.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Ainda em tempo...

Mais duas reportagens sobre a Coletiva de Imprensa de "A Loba de Ray-Ban"


Christiane Torloni conta que escuta a voz de Raul Cortez (1932 - 2006) ao ensaiar o texto de Renato Borghi, "A loba de Ray-Ban". Isto porque a atriz de 52 anos estava no elenco da primeira montagem da obra em 1987, interpretando a mulher do personagem de Raul, o então lobo da história. Passados 22 anos, personagens e gêneros se invertem. Torloni vive Julia Ferraz, correspondente feminina do protagonista. A peça, dirigida por José Possi Neto, o mesmo diretor da célebre montagem da década de 80, entra em cartaz no Teatro Frei Caneca em São Paulo a partir de 7 de novembro.

"- Comecei a me emocionar ao decorar o texto. Ouço Raul falando como se estivesse sussurrando no meu ouvido. Foi um grande desafio, pois as vozes do passado continuam em cena. Também me ouço como o personagem de Leonardo Franco" [que na montagem atual interpreta o personagem masculino que corresponde ao que foi de Torloni em 1987] - contou a atriz.

A estrutura da peça é a mesma, mas o triângulo amoroso que surge nos bastidores do teatro passa a ser entre um homem e duas mulheres. Antes, o triângulo formava-se quando o personagem de Raul Cortez, um empresário e ator de teatro, se apaixonava por um jovem ator, interpretado no passado por Leonardo Franco na temporada carioca da peça, enquanto vivia um casamento com a personagem de Christiane Torloni.

A versão feminina do texto foi escrita por Borghi ao mesmo tempo em que ele criava a versão masculina, a pedidos da atriz Dina Sfat. Infelizmente, Dina adoeceu antes que pudesse encenar o texto, empreitada assumida agora por Torloni.

O novo triâgulo amoroso forma-se quando Julia Ferraz (Christiane Torloni) apaixona-se por uma jovem atriz (Maria Maya). Julia é casada com o personagem de Leonardo Franco. Todos os envolvidos são atores.

"- O assunto principal da peça não é o homossexualismo. Este é apenas um dos temas. Mas como é ainda um tabu em pleno século XXI, ele acaba aparecendo na frente. O grande assunto da peça é o relacionamento amoroso, o papel da traição, da paixão e do ciúme. Por isto esta peça é universal, nunca fica datada. Os personagens discutem o tempo inteiro a honestidade de suas relações. Paralelo a isto, existe uma grande paixão que os une: o teatro. Estas relações são governadas pela paixão que eles têm pelo teatro. A peça defende a honestidade, não o homossexualismo"- explica José Possi Neto.

"-O preconceito e o medo vão destruir a relação da grande atriz e empresária com a jovem aspirante aos palcos. Também ganha ênfase a relação de ciúmes e competição em um casamento. São elementos que ajudam o público a se identificar com os personagens", acredita Possi.

"- Mas sei também que há um enorme interesse em ver um barraco em cena" - completa o diretor, referindo-se ao momento no qual a atriz principal interrompe o espetáculo e assume o clímax de sua crise existencial e afetiva diante do público.

O encenador afirma que não está fazendo uma remontagem de seu espetáculo de 1987.

- É uma nova abordagem. Sinto como se estivesse dirigindo um clássico.


Christiane Torloni define sua personagem como alguém que "transita com liberdade pelo desejo e pela paixão".

"- As pessoas às vezes aparentam uma sexualidade que não têm. A peça trata de liberdade sexual" - diz a atriz, lembrando do casal de lésbicas (interpretado por ela e Sílvia Pfeiffer) que enfrentou a rejeição do público na novela "Torre de Babel" e acabou saindo trama com uma morte trágica.

Interpretar primeiro a personagem mais jovem da peça e, agora, assumir o posto da loba, é motivo de orgulho para Christiane Torloni.

"- Hoje você pode escalar um elenco de 7 a 87 anos. Estou caminhando dentro da nossa cronologia teatral. Isso me dá um orgulho enorme. É uma glória continuar e a loba é um prêmio" - diz Torloni, acrescentando que a nova montagem é uma oportunidade para o público se reencontrar com um clássico da dramaturgia brasileira.

Mas a atriz faz um pedido ao público: que não tomem Rivotril antes de vir ao teatro, para que seja possível se emocionar.

"- O povo está tomando Rivotril como se fosse floral. As pessoas estão se anestesiando. Por favor, não se anestesiem antes de vir ao teatro. Ninguém mais quer chorar, se emocionar. Vivemos um momento estranho, com essa modalidade do "eu me anestesio no café da manhã para poder viver". O ópio do povo virou o Rivotril, os remédios de tarja preta" - conclui.

Fonte: O Globo

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Christiane Torloni vai interpretar uma mulher bissexual na peça A Loba de Ray-Ban, que estreia em São Paulo, no teatro Frei Caneca, no próximo dia 7 de novembro.

Ao falar sobre a peça, ela fez questão de lembrar de sua personagem na novela Torre de Babel (Globo), que morreu na explosão de um shopping, por ser homossexual.

"- Já tive de morrer na TV por fazer uma personagem homossexual. Nos anos 90, eu fiz um casal com Silvia Pfeifer, em Torre de Babel. Era o casal mais tranquilo da novela. O mais bem sucedido. Mesmo assim, elas tiveram de morrer daquela forma horrorosa, em uma explosão dentro de um shopping, por conta do preconceito."

Para Torloni, sua personagem no teatro, que se envolve com uma atriz mais jovem, interpretada por Maria Maya, abre caminhos.

"- Ainda existe o tabu contra a homossexualidade. Então, uma das bandeiras dessa peça é a favor da sexualidade. As personagens dialogam sua liberdade. Não é que elas sejam homossexuais. Elas são sexuais. Vivem pelo desejo e pela paixão."

A atriz afirmou que muita gente “aparenta uma sexualidade que não tem”. "- Tem cara que você olha e fala: esse é bofe. E não é não! [risos]. A peça não defende a homossexualidade. Ela defende a honestidade."

Christiane e Maria, que fizeram mãe e filha na novela Caminho das Índias (Globo), contaram que a proximidade na trama de Gloria Perez ajudou na peça dirigida por José Possi Neto. Maria lembra: "- Quando me disseram que seria filha dela, pensei que fosse pegadinha, porque ela já havia me convidado para a peça."

Torloni já viveu o papel que hoje é de Maria em 1987, na primeira montagem do texto de Renato Borghi. Ela, que afirmou “cuidar muito bem” de seu corpo, aproveita os 22 anos que separam as duas encenações para filosofar: "- Acho que estou crescendo. Tenho muito orgulho da minha trajetória. Poder continuar nessa profissão para mim é a glória. Um dia, quem sabe, não vou fazer a vovó da Loba? Ou a vovozinha do lobo mau? [risos]"

Fonte: Primeira Edição

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